Escrito em 2007
Ontem lembrei de uma das vezes em que realmente me senti incrivelmente com vida e inteira, ontem lembrei de você; as coisas de verdade não morrem dentro de nós... elas respiram num canto de nossas veias e pulsam uma vez ou outra mais forte nos fazendo lembrar de tudo outra vez... não... não queria viver tudo outra vez apenas apenas lembrar e dar um sorrizinho num canto esquecido da boca...É certo ... não me arrependo de nenhum segundo que estive ao seu lado, não me culpo de ter me anulado uma centena de vezes porque amar é renunciar um pouco de si mesmo, mesmo diante de todas as falsidades, aparências e medos do mundo, ainda tive a coragem de amar e ser inteira. Nada vai tirar todas as sensações, todos os gostos, todos os cheiros, todos os olhares, todos os toques... me sentia viva...Lembro do frio na barriga do teu primeiro olhar, lembro a emoção daquele abraço no aeroporto, o sabor do primeiro beijo, a respiração transformada em suspiro, minhas mãos dormentes e suadas grudadas com a sua...Ainda lembro o cheiro da terra molhada, ainda ouço as gargalhadas soltas, o gosto da lula empanada do Olavo, o carisma enigmático da Tatu, as noites intermináveis de gamão, o frio da chuva que não cessava, o calor do seu beijo febril...Ainda lembro do gosto da tequila de frutas vermelhas daquele bar mexicano, do brilho do meu olhar refletido no espelho do banheiro e da gargalhada que dei sentindo uma felicidade indescritível...Ainda vejo o resto de tua inocência, o peso de tua cabeça encostada no meu peito enquanto assistíamos TV no chão as sala, a curiosidade disfarçada em descobrir cada milímetro do meu corpo...Ainda sinto toda a liberdade dada...Lembro do vento batendo no meu corpo, das minhas mãos entrelaçando teu corpo, do medo seguro, do frio que congelou meu riso, da sensação uníssona de ser amada por um ser inteiro e completo...Eu fui apaixonada com cada músculo pulsante, com cada célula que corria nas minhas veias, com cada pensamento... Eu senti orgulho de você infinitas vezes...Ainda lembro do almoço no restaurante amistoso de comida diferente a algumas ruas da “nossa”, lembro da conversa a caminho de Ubatuba e da densidade da nuvem, você deve ser mesmo um herói como o que você ilustra em suas fotos, lembro que mesmo “sem” você eu estava bem porque na realidade você estava dentro de mim...Ainda lembro a calçada que subia e descia em diferentes pontos, das vitrines que reluziam ouro, das mulheres esguias que desfilavam pela sua esquina, dos carros luxuosos e toda a fama que aquela quadra possuía....Lembro das músicas lounge e festas que transformaram seu escritório em cozinha, seu banheiro em filas de “pó” e bochechas de porcelana rosadas, seu jardim em passarela, seu canteiro em bar com belos garçons...Lembro o tempo que não parava para os engravatados e escorregavam lentamente no meu relógio... lembro da paquera deslumbrada de mimi com um cachorro na esquina enquanto havíamos dado uma parada estratégica, o dono do cachorrinho? Um casal de gays descolados... ao conversarmos sobre as paqueras dos bichanos terminamos em nossa paquera e recebi um boa sorte inesquecível... carismática e alegre...Lembro de quanto a cama estava fofa por causa do edredon que você comprou, lembro do piso de tacos escuros e do sofá branco, lembro do painel e todas as suas caretas... lembro do frio que fazia na sala enquanto eu comia chocolates da lindt...Lembro da minha alma afastando-se aos poucos enquanto eu saltava, eu fui ao ponto mais alto pra dizer que eu te amava e fui ao mais baixo pra lá saber que você também me amava...Eu te amei tanto que dói só em lembrar a dor de cada lágrima que rolava em meu rosto... mutilava cada órgão meu, era uma dor indescritível, doía no meio do meu corpo, entre o estômago e o coração, era uma sensação de vazio, de uma respiração oca, minha alma não tinha se afastado a milímetros do meu corpo, ela havia por um tempo sumido... respirar doía, rir doía... eu sabia que aquele seria nosso último abraço, nosso último beijo mesmo com você enxugando minha lágrimas dizendo que nada daquilo iria acabar... mesmo com você sendo perfeito até o final...Já tinha acabado naquele instante do seu grito, naquele segundo do seu olhar de ciúmes do que não estava na sua frente, findou quando coloquei tudo na mala, lá estava meu amor esmagado encaixotado junto a roupa suja de nossa nostálgica alegria; lá estava todo respeito indo embora na primeira lágrima Respiramos...Nos perdoamos mas sabíamos que havíamos dito muita coisas, tínhamos esfaqueado nossas admirações recíprocas, tínhamos ressuscitado o medo de sermos inteiros, tínhamos matado a entrega...Busquei forças nas cinzas, resgatei minha alma, lembrei o último lugar onde havia sido imensamente feliz... lembrei que fui feliz em cada abraço dos meus pais, em cada sorriso das minhas sobrinhas, em cada olhar de carinho da minha vó, em cada palavra amiga da minha irmã. Neste dia fui fênix e você finalmente morreu, e eu chorei de luto sem teatro, de luto não atual, de resto de luto. De um luto morto...Hoje sinto saudade, liguei para ouvir sua voz e saber que você existe além do pedaço que habita meu peito... uma lembrança que faz eu reviver nem que seja uma vez a cada década a sensação de alegria inteira, inocente e completa de quando você ainda pulsava não nas minhas veias mas dentro do meu coração...
O melhor disso tudo é lembrar de tudo, discordando de todos os poetas, relembrar não é reviver... é ver e aprender a fazer cada dia melhor por uma pessoa que virá amanhã e meus risos e lágrimas terão sido apenas uma ponte pra mim chegar até ele... por que nele haverá não uma paixão arrebatadora cheia de "eu te amo" em voz alta ... mas um "eu te amo" cheio de paixão decrito apenas num olhar...
To E.
Beijo.
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